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Esperando a Volta de Jesus - Lição 3 (Adultos)
Elinaldo Renovato*
“E o mesmo Deus de paz avos santifique
em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados
irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23).
Como não sabemos o
dia da volta de Jesus para arrebatar a sua Igreja, é indispensável estarmos
preparados para aquele grande acontecimento, como se ele viesse a ocorrer hoje,
agora. Infelizmente, na prática, há muitos cristãos que não estão preparados para
subir com a Igreja, na volta do Senhor. Assim como as “virgens loucas”, de
Mateus 25, estão descuidados, não têm reserva espiritual, negligenciam o seu
testemunho e alguns escandalizam o nome do evangelho. No entanto, a volta de
Jesus será repentina, como a vinda de um ladrão para assaltar uma residência.
Não há hora marcada, não há dia conhecido. A surpresa é o fator preponderante.
Por isso, a santificação é requisito fundamental para o encontro com o Senhor
nos ares, em sua volta (1 Ts 5.23).
Jesus usou outras
metáforas para demonstrar a surpresa de sua volta. Aludiu aos dias de Noé,
quando os homens de sua época não estavam nem um pouco interessados em saber o
que aconteceria, anos depois, quando o patriarca lhes alertava para a
catástrofe hídrica que destruiria a humanidade de então. Alertou que sua vinda
seria como nos dias de Ló, acrescentando apenas alguns poucos detalhes que
diferenciavam uns dos outros. Nos dias de Noé: “Porquanto, assim como, nos dias
anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao
dia em que Noé entrou na arca” (Mt 24.38). “Como também da mesma maneira
aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e
edificavam” (Lc 17.28). Eles pensavam em tudo, menos em santidade. Só olhavam
para as coisas da terra, e se esqueciam de olhar para cima (Cl 3.2).
Qual a diferença
entre os dias de Noé e os dias de Ló? Nos primeiros, havia vida social normal,
incluindo o casamento entre as pessoas; havia agricultura, pois “comiam,
bebiam”. Nos dias de Ló, as atividades eram semelhantes, mas não se fala em
casamento. Coincide com o relato de Gênesis 19. Em Gênesis 19.4,5, ficou
registrado que os homens de Sodoma eram praticantes da homossexualidade.
Queriam “conhecer”, ou ter relações com os visitantes que foram tirar Ló,
imaginando que seriam apenas homens comuns. Diante da maldade excessiva
daquelas cidades, Deus tirou Ló de lá, repentinamente, sem que os habitantes
soubessem, e mandou um fogo dos céus que destruiu a todos. A pecaminosidade e a
corrupção alcançaram níveis além do suportável pelo Deus sumamente santo.
Assim, uma
característica comum ao que aconteceu com os povos antediluvianos e os de
Sodoma e Gomorra foi a surpresa com que foram alcançados pelas respectivas
tragédias. Jesus alertou que, na sua volta para buscar a Igreja, também as
pessoas, no mundo, serão tomadas de surpresa. Jesus virá num dia e numa hora
que ninguém sabe (Mt 24.36). Dessa forma, é indispensável que os cristãos
estejam preparados, sabendo como esperar a volta do Senhor Jesus. E estar
preparado é estar em santidade e em santificação, que é o processo contínuo da
separação do mal.
I - Atitudes Corretas ante a Volta do
Senhor
A primeira fase da
volta de Jesus para buscar a sua Igreja, integrada pelos crentes fiéis e
santos, será tão repentina que não haverá tempo para ninguém preparar-se de
última hora. Os meios de comunicação antigos e os mais modernos não terão
oportunidade para anunciar a iminência da volta de Cristo. Essa premência e
surpresa do arrebatamento dos salvos já foi anunciada há muitos séculos, e
estão bem claras nas Escrituras. Diante dessa realidade profética e real, o
cristão verdadeiro, que tem consciência do que é ser salvo para ir para o céu,
onde Cristo está (Jo 14.3), deve viver num estilo de vida e conduta de quem
está esperando seu Senhor a qualquer momento.
1. Esperar com Vigilância
Quem espera a volta
de Jesus a qualquer momento precisa estar vigilante, tanto ao que acontece ao
seu redor, como dentro de si próprio.
Os sinais exteriores
da volta iminente de Jesus já foram resumidos no capítulo anterior, e estão se
cumprindo na História de maneira infalível, pois as palavras de Jesus não
passarão (Mt 24.35). Porém, o crente em Jesus deve vigiar o que se passa no
“ambiente” interior de seu ser, do seu coração. Os acontecimentos proféticos
hão de cumprir-se independentemente da vontade dos homens sem Deus ou mesmo dos
crentes fiéis. Mas o que acontece no interior de cada pessoa depende de si, de
suas atitudes mentais, de seus sentimentos e emoções, ou “do coração”. O
Dicionário Houaiss diz que vigilância é “1. Ato ou efeito de vigiar(-se); 2.
Estado de quem vigia; 3. Precaução; 4. Cuidado, atenção desvelada” (grifo
nosso). A partícula se indica a vigilância de si mesmo.
A maioria absoluta
dos crentes que ficarão para trás na volta de Jesus deixará de ir para os céus
por causa de suas atitudes erradas, de sua conduta em desacordo com a vontade
Deus, expressa em sua Palavra. Jesus alertou quanto a isso e exortou os discípulos
a serem vigilantes: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o
vosso Senhor” (Mt 24.42). Ele também ensinou sobre a natureza tendente ao
pecado que está dentro de cada um: “Porque do coração procedem os maus
pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e
blasfêmias” (Mt 15.19; Mc 7.21). Todos esses pecados começam no interior do
homem. Satanás conhece bem essa realidade, desde que tentou o homem no Éden e
viu que o ser criado era suscetível de deixar de ouvir a voz de Deus e ouvir a
tentação.
Para não cair em
tentação, e ficar para trás na volta de Jesus, só existe uma receita, dada por
Jesus (Mt 26.41). Somente com oração, muitas vezes reforçada pela prática do
jejum, é que podemos vencer as concupiscências da carne. É evidente que a
maioria dos crentes, hoje, não gosta de orar. As jovens consideradas loucas em
Mateus 25 ficaram de fora da festa nupcial porque não vigiaram, deixando faltar
o azeite em suas vasilhas. Nos dias presentes, há muitos evangélicos negligentes.
Mas Jesus mandou vigiar constantemente, pois não sabemos a hora em que Ele há
de vir. “Sabei, porém, isto: se o pai de família soubesse a que hora havia de
vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa” (Lc 12.39).
2. Viver na Unção do Espírito Santo
Na parábola das Dez
Virgens (Mt 25), vemos a necessidade do azeite, que simboliza a presença do
Espírito Santo, para esperar “o Noivo”. Somente as “virgens prudentes”, que
tinham azeite em suas vasilhas, e também reservas por precaução, puderam entrar
com o noivo para as bodas. As “insensatas” ou imprudentes “ainda” foram comprar
azeite, e se atrasaram para as bodas: “E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o
esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se
a porta” (Mt 25.10 - grifo nosso). A parábola retrata um casamento oriental, em
que, durante uma semana, havia as bodas. As dez virgens representam os crentes
em geral. As prudentes representam os crentes que estão esperando a volta de
Jesus, na comunhão do Espírito Santo, sentindo a sua presença, tipificada pelo
azeite. As virgens “loucas” não são débeis mentais, mas crentes que, ao longo
dos anos, se descuidam, e deixam de buscar a presença de Deus e de seu
Espírito. Notemos que a diferença fundamental entre as prudentes e as loucas
era o que elas tinham quanto à provisão do azeite. Nas igrejas em geral, há um
esfriamento quanto à busca do batismo com o Espírito Santo, que corresponde à
“reserva” indispensável para esperar com segurança a volta de Jesus.
Quando o crente
aceita a Cristo, já tem o Espírito Santo habitando com ele, “habita convosco”,
mas Jesus prometeu: “estará em vós” (Jo 14.17). Os discípulos já eram salvos,
mas ainda precisavam ser “revestidos de poder” (Lc 24.49). E esse revestimento
especial, distinto da salvação, começou a acontecer e a estar à disposição dos
salvos, quando da descida do Espírito Santo, como Jesus prometeu (At 1.8;
2.1-13). Sem a presença do Espírito Santo, no crente, e na sua vida, é
impossível esperar a vinda de Jesus de forma correta. Precisamos ser cheios do
Espírito (Ef 5.18; At 13.52); andar em Espírito (Rm 8.1; G15.19); ser guiados
pelo Espírito (Rm 8.14); ser templo do Espírito Santo (1 Co 6.19). Sem a unção
do Espírito Santo, nos dias presentes, é impossível viver a Palavra de Deus,
obedecer ao Senhor e estar pronto para o arrebatamento.
3. Viver com Santidade
Santidade é uma
palavra esquecida por muitos pastores. Para agradar a todos, numa atitude
demagógica, muitos deixam de ministrar a doutrina da santificação, principalmente
para a juventude. Há igrejas que inventaram as “boates-templo” para atrair
jovens para um ambiente parecido com os locais de reunião de jovens para
namorar, beber, marcar encontros, etc., mesmo que em tais “boates evangélicas”
não haja bebidas alcoólicas. Há igrejas que usam estruturas de luta-livre, de
artes marciais e até de “rodeios”, com animais dentro dos templos, para atrair
os jovens! No tempo de Jesus e no de Paulo já havia os Jogos Olímpicos, com
diversas modalidades, mas nem Cristo nem Paulo, nem de longe, sugeriram tais
aberrações para atrair pessoas para o evangelho.
O evangelho do
entretenimento tem suplantado o evangelho do sofrimento por Cristo. Mas sem
santificação “ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Ser santo é ser separado,
consagrado para Deus. O apóstolo Pedro nos exorta a sermos obedientes e santos
em toda a nossa maneira de viver (1 Pe 1.13-15). Santidade pressupõe
irrepreensibilidade. Paulo exortou: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em
tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados
irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23). Quando
falamos de santificação não queremos passar a ideia do legalismo e do fanatismo
de algumas denominações, de forma alguma. Para ser santo, um servo ou uma serva
de Deus não precisa tornar-se um eremita ou um monge medieval, que se isolavam
das cidades, para “não se contaminar com o mundo”.
Santificação é uma
necessidade imperiosa de separação de tudo o que a Bíblia condena e não do que
certos líderes elegem como pecado, sem qualquer fundamento bíblico. Houve tempo
em que, se um homem não usasse chapéu, não seria santo; se uma mulher não
usasse um vestido longo, com decote no pescoço e mangas compridas até aos
punhos, mesmo num clima tropical, não seria santa; também não seria santa uma
jovem que, mesmo tendo cabelos longos, aparasse as pontas; se usasse um diadema
estaria condenada ao inferno. Isso não é santidade. Isso é fanatismo,
intolerância e sectarismo, sem qualquer base na Palavra de Deus. O mais
terrível e detestável dessa visão de santidade é que tais coisas são
consideradas pecados, enquanto outras, claramente condenadas pela Bíblia, não
são consideradas, como mentira, calúnia, difamação (crimes contra a honra),
calotes, desvio de dinheiro dos cofres de igrejas, falta de amor, aborrecimento
ou ódio a quem não pensa da mesma forma, e tantos outros comportamentos
execráveis. Isso é farisaísmo, e não santidade.
Não defendemos o
desrespeito aos bons usos e aos bons costumes, que têm fundamento bíblico, mas
rejeitamos o legalismo e o autoritarismo que já empurraram muitos para o
inferno. Como ficam diante de Deus aqueles que contribuíram para a matança
espiritual sem motivo ou fundamento na lei de Deus? A eles faltava o requisito
a seguir comentado.
4. Esperando com Amor
Os crentes que
subirão ao encontro do Senhor serão seus discípulos fiéis e verdadeiros. Já
vimos que a “marca registrada” do cristão não é o nome da denominação, nem o
nome de família, nem o cargo que ocupa na igreja local, mas o amor de Deus no
coração e na prática diária. Jesus disse: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis
uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos
ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos
outros” (Jo 13.34,35 - grifo nosso). Esta é uma verdade neotestamentária, pouco
anotada por grande parte dos evangélicos, inclusive por pastores de grandes
igrejas.
Os verdadeiros
cristãos, que esperam a volta de Jesus, não são identificados pelo nome ou
razão social da denominação, do ministério ou da igreja. O Senhor Jesus, num de
seus discursos, em presença dos seus discípulos lhes apresentou “um novo
mandamento”, por assim dizer, o “décimo primeiro mandamento”, que eles não
tinham em mente. Conheciam bem os Dez Mandamentos da Lei de Moisés, que também
era a Lei de Deus. Ele ressaltou o valor desse “novo mandamento”, que o dever
de os seus servos amarem uns aos outros, da mesma forma como Ele nos amou. Essa
é a identidade do verdadeiro cristão, preparado para subir no arrebatamento -
ter amor pelos seus irmãos em Cristo. E característica ou a marca distintiva do
verdadeiros discípulos de Jesus ter amor pelos irmãos.
Nesse quesito, ou
requisito, como estão os crentes no século XXI? Tomemos o exemplo de nosso
Brasil. O evangelho tem um crescimento numérico extraordinário. São milhares de
igrejas e milhões de crentes, numa dimensão que, segundo estatísticas com
projeções do IBGE, em 2014, os evangélicos seriam 25% da população (em torno de
52 milhões de pessoas). No entanto, são evidentes as divergências, as
competições e as discordâncias entre igrejas históricas e as chamadas
neopentecostais. Não só em termos doutrinários, mas, também em termos
comportamentais. Há líderes de grandes igrejas, que, em programas de televisão,
abertamente criticam outras igrejas e outros pastores. Isso é falta de ética, e
também falta de amor. Atitudes que em nada glorificam a Deus (cf. 1 Co 10.31).
Mais triste é ver obreiros que não conseguem sequer saudarem-se com a paz do
Senhor. Como estarão esses na vinda de Jesus?
Se pudéssemos
perguntar ao apóstolo João como estarão os crentes que não têm amor a seus
irmãos, o que ele nos responderia? Vejamos: “Aquele que diz que está na luz e
aborrece a seu irmão até agora está em trevas” (1 Jo 2.9). Isto é, quem
aborrece a seu irmão, mesmo que esteja numa igreja há muitos anos, nasceu nela,
é obreiro, prega bem, canta bem, etc., simplesmente “está em trevas”, ou seja,
não é salvo. Acreditamos que, ampliando sua resposta sobre os que não vivem em
amor e aborrecem seus irmãos, João nos acrescentaria: “E tem mais, é muito
perigoso não amar o irmão por que ‘aquele que aborrece a seu irmão está em
trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe
cegaram os olhos’” (1 Jo 2.11).
Se insistíssemos,
dizendo: “Apóstolo João, esse não seria apenas um ‘pecado que não é para a
morte’, e podemos orar por eles, como o senhor diz em 1 João 5.16?”, o
apóstolo, certamente, ficaria mais sério, e responderia: “Meu filho, há muita
gente, inclusive pastores, que consideram os maiores pecados a falta de
obediência aos usos e costumes, mas muitos desses nem sequer serão reconhecidos
na vinda de Jesus. Sabe por quê? Anote: “Nós sabemos que passamos da morte para
a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama a seu irmão permanece na morte.
Qualquer que aborrece a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida
tem permanente nele a vida eterna” (1 Jo 3. 14,15 - grifo nosso).
II - Atitudes Errôneas Diante da Vinda
de Jesus - no Arrebatamento
1. Ignorando a Vinda de Jesus
Em Mateus 24.48, o
mau servo diz: “O meu senhor tarde virá”, e passa a viver de modo negligente e
desatento, completamente alheio à volta de Cristo. A este, diz o Senhor: “Virá
o senhor daquele servo num dia em que o não espera e à hora em que ele não
sabe, e separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá
pranto e ranger de dentes” (Mt 24.50). Nestes tempos de sinais evidentes da
proximidade da vinda de Jesus, há muitos evangélicos brincando de ser crentes.
Há obreiros que não mais falam na vinda de Jesus. É negligência espiritual.
Quanto aos ímpios, é natural que não levem em conta as advertências da Palavra
de Deus quanto à proximidade e surpresa da volta de Jesus. Mas os cristãos não
devem descuidar-se dessa realidade espiritual tão significativa.
2. Escarnecendo das Profecias
O apóstolo Pedro
escreveu: “sabendo primeiro isto: que nos últimos dias virão escarnecedores,
andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a
promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram todas as coisas
permanecem como desde o princípio da criação” (2 Pe 3.3,4). O apóstolo deu como
resposta o ensino bíblico, que indica a matemática de Deus quanto à contagem
dos tempos, dizendo: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o
Senhor é como mil anos, e mil anos, como um dia” (2 Pe 3.8). Pedro envia essa
mensagem a pessoas crentes, que estão nas igrejas. Como visto, no capítulo 1,
há diversas interpretações quanto ao arrebatamento da Igreja. Há, inclusive,
teólogos que dizem que Jesus jamais virá nas nuvens para buscar a sua Igreja (1
Ts 4.17), que isso é apenas uma utopia motivadora para os crentes se
comportarem de modo santo. É melhor estar preparado, e conferir os sinais
proféticos de acordo com a santa Palavra de Deus.
3. Traição e Aborrecimento
E um dos sinais da
vinda do Senhor Jesus. Esse comportamento pode levar muitos à condenação eterna.
Jesus profetizou: “Nesse tempo, muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns
aos outros, e uns aos outros se aborrecerão” (Mt 24.10). Qual a causa dessa
traição entre os que se dizem cristãos, no tempo da volta de Jesus? Ele
responde: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos se esfriará”
(Mt 24.12). Não há necessidade de nenhuma pesquisa para constatar, pelas
evidências diárias, na mídia e no comportamento humano, que a iniquidade está
generalizada, no mundo todo, e com muita incidência em nosso país.
Esse aumento da
iniquidade acaba influenciando o comportamento dos crentes negligentes quanto à
volta do Senhor. E muitos nem percebem que estão aborrecendo seus irmãos, seja
pelo legalismo exacerbado, seja pela inveja, pela calúnia, seja pela maldade e
carnalidade. O apóstolo João anotou que quem aborrece a seu irmão não pode
entrar no Reino de Deus: “Qualquer que aborrece a seu irmão é homicida. E vós
sabeis que nenhum homicida tem permanente nele a vida eterna” (1 Jo 3.15).
Naturalmente, diante de Deus, quem aborrece a seu irmão é um homicida
espiritual, passível da penalidade com a perdição, tanto quanto o homicida que
tira a vida física de alguém.
III - Os Dois Tipos de Servos
Na vinda de Jesus,
haverá dois tipos de servos. Os fiéis e os infiéis. Os que fazem a vontade de
Deus e os que estão fora de sua vontade. Os que estão no seu lugar e os que
estão fora do lugar. Os que estão vigiando e os que estão descuidados, como na
parábola das Dez Virgens.
E Jesus proferiu
outra parábola, enfatizando esses dois tipos de crentes. A parábola dos dois
servos.
1. O Servo Fiel
“Quem é, pois, o
servo fiel e prudente, que o Senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o
sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o Senhor, quando vier,
achar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens”
(Mt 24.4547). Essa parte da parábola, no meio do Sermão Profético de Jesus, dá
a entender que Ele se referia a servos que têm liderança, ou seja, obreiros,
pastores, dirigentes de congregação ou de trabalhos, nas igrejas locais, que,
no seu conjunto, se forem verdadeiras, formam o todo maior que constitui a
Igreja do Senhor. E que deverão prestar contas, de modo “que o Senhor, quando
vier, achar servindo assim”. “Primeiro, porque eles são constituídos “sobre a
sua casa”. Estar “sobre a casa” é ser líder, mordomo, ou administrador dos bens
de seu Senhor. Hoje, a “casa de Deus”, ou “casa de Jesus”, pode ser
identificada como uma igreja cristã, que reúne servos ou discípulos de Jesus
num determinado lugar. Numa visão mais ampla, ser “servo fiel e prudente”
pode-se aplicar a cada crente individualmente, homem ou mulher, que espera a
volta do Senhor.
Esse “servo fiel e
prudente” são os líderes ou pastores, que atuam na obra do Senhor com fidelidade
e amor. Em segundo lugar, o texto diz que esse servo, elogiado pelo seu Senhor,
é constituído “para dar o sustento a seu tempo” sobre a sua casa, ou seja, aos
que vivem e trabalham na “casa do Senhor”. Os pastores das igrejas, sejam quais
forem elas, pequenas, médias ou grandes, devem ser realmente apascentado- res
do rebanho de Jesus. As ovelhas não lhes pertencem. Todo pastor cristão
pastoreia ovelhas que não lhes pertencem. E um dia haverão de prestar contas de
como as trataram como ovelhas do Senhor. Nesse aspecto, é o apóstolo Pedro quem
melhor traduz como deve ser o comportamento dos pastores, como servos fiéis e
prudentes: “Aos presbíteros que estão entre vós, admoesto eu, que sou também
presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da
glória que se há de revelar: apascentai o rebanho de Deus que está entre vós,
tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância,
mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas
servindo de exemplo ao rebanho. E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a
incorruptível coroa de glória. (1 Pe 5.1-4)
Essas são as
qualidades que devem identificar um “servo fiel e prudente” constituído para
cuidar da casa do Senhor. Dando o alimento ao “rebanho de Deus”, agindo, nesse
cuidado, sem autoritarismo; trabalhando sem “torpe ganância”, como tantos têm
aparecido, em noticiários na mídia, apropriando-se de dinheiros das ofertas e
dízimos das igrejas. A cobiça e a ganância têm tornado muitos obreiros em
ladrões e corruptos no meio evangélico, causando escândalos ao bom nome do
evangelho (Mt 18.7). Ao servo “fiel e prudente”, que lidera a obra do Senhor,
está reservado um galardão especial, não concedido a nenhum outro tipo de
servo: “a incorruptível coroa de glória”!
2. O Mau Servo
“Porém, se aquele mau
servo disser consigo: O meu senhor tarde virá, e começar a espancar os seus
conservos, e a comer, e a beber com os bêbados, virá o senhor daquele servo num
dia em que o não espera e à hora em que ele não sabe, e separá-lo-á, e destinará
a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mt
25.48-51). Nesse ponto, na parábola dos dois servos, parece que Jesus quis
mesmo exagerar nas qualidades negativas do mau servo. Se, no caso do “servo
fiel e prudente”, pudemos relacionar Com os obreiros fiéis, sobre as igrejas
cristãs, nesse caso do “mau servo” não é fácil fazer a correlação dessas
péssimas qualidades com os líderes da obra do Senhor. Admitimos que há maus
servos, ou maus obreiros, à frente de igrejas, como dirigentes, bispos,
presbíteros ou pastores. Mas entendemos que são exceções.
Certamente, tais
qualidades não recomendáveis para um servo ou serva de Deus aplicam-se bem a
todos os crentes, que estão esperando a volta de Jesus. A exemplo das “virgens
loucas”, de Mateus 25, o “mau servo” racionaliza, em função do tempo de crente,
ou da história da igreja, ao longo dos séculos, e diz: “O meu senhor tarde
virá”. Tal raciocínio leva o crente a se descuidar, e negligenciar sua fé e sua
conduta. O que é muito perigoso. Facilmente, esse tipo de pensamento leva o
crente a cair em tentação, visto que, descuidado, se esquece de orar e de
vigiar como Jesus exortou em Mateus 26.41.
Há muitos que começam
a carreira cristã, mas não a terminam. Em Mateus 24.45, o Senhor destaca a
qualidade de fidelidade e prudência do servo que estará esperando a sua vinda.
Essas características devem fazer parte da vida dos que entendem que estamos
vivendo a geração da última hora, da geração que verá e fará parte do arrebata-
mento da Igreja. “Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o Senhor
constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo?”.
*Elinaldo Renovato de Lima, Ministro do Evangelho,
Professor universitário e Bacharel em Ciências Econômicas, pastor titular da
ADPAR - Assembleia de Deus em Parnamirim/RN, membro da Convenção
Estadual de Ministros da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Rio
Grande do Norte (CEMADERN) e membro da Convenção Geral das Assembleias de Deus
no Brasil (CGADB).
Lição 8 - O Princípio do Governo Humano (Adultos)
*Claudionor
de Andrade
INTRODUÇÃO
Imaginemos
o Dilúvio em nossos dias. Ao entrar no imenso navio, construído nalgum
estaleiro asiático, Noé e sua família teriam de deixar, para trás, a maior
parte das invenções e conquistas dos últimos cem anos. De nada lhes serviria o
avião, o tablete ou o celular. Mas, sabiamente, aperceber-se iam de provisões
para uns 13 ou 14 meses, pois a vida, a bordo da arca, exigiria muita comida,
ração e água potável.
Passada
a grande inundação, e já fora da imensa nau, a família noética teria de iniciar
um novo processo civilizatório. As invenções teriam de ser reinventadas, e as
coisas já descobertas, redescobertas com urgência Já imaginou recriar o motor
elétrico, o automóvel, a televisão, o computador entre outras maravilhas de
nossa era? Nem mencionaremos os avanços na área da medicina.
A
humanidade, em apenas quarenta dias, seria arremessada, da era do conhecimento,
à idade do bronze A partir daí, teríamos de retrilhar os passos dos sábios,
cientistas e inventores, para que voltássemos a usufruir de algum progresso
tecnológico. Providencialmente, a civilização adâmica, naquele período, ainda
era rudimentar se comparada à nossa Mesmo assim, teve de haver um recomeço.
I.
O
RECOMEÇO DA CIVILIZAÇÃO
Os
avanços da primeira civilização, embora admiráveis, ainda podiam ser
razoavelmente dominados por uma única família. Que o patriarca fosse
agricultor, não há dúvida. Quanto aos seus filhos, não lhes sabemos as
profissões. Sei apenas que Noé, Sem, Jafé e Cam, eram excelentes marceneiros,
por terem levado adiante o projeto de uma arca que, apesar do formidável
cataclismo, deu-lhes abrigo e segurança por mais de um ano. Portanto, em sua
construção, lograram eles preservar os princípios indispensáveis da ciência e
da tecnologia do mundo antediluviano.
1. A continuidade história da humanidade. O
Dilúvio rompeu um processo civilizatório, mas, paradoxalmente, deu
prosseguimento à história da humanidade A narrativa que teve início, com Adão,
teria continuidade, agora, com Noé Portanto, a grande inundação é apenas um
trecho da longa peregrinação do ser humano sobre a face da Terra.
Hoje,
narramos a História Sagrada aos nossos filhos e netos sem que seja preciso
explicar-1hes hiatos ou lacunas. Arqueologicamente, os vestígios diluvianos não
são expressivos. Teologicamente, porém, as evidências são fortes,
irrespondíveis e racionais. Estamos diante de um fato, não de uma parábola ou
alegoria.
A
história ai está para lembrar-nos que, apesar de nossos pecados e iniquidades,
o plano divino para os filhos de Adão será rigorosamente cumprido. Por isso, o
Dilúvio não pode ser visto apenas como a maior tragédia natural do planeta, -
tem de ser encarado como a maior epopeia da espécie humana.
2. O repovoamento da terra. A
história da humanidade terá continuidade com uma nova civilização. Mas, para
que esta vingue, é necessário e urgente repovoar a terra Por isso, o Senhor
abençoa Noé e sua família “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn
9.1). A benção fazia-se imprescindível, porque o repovoamento do planeta
haveria de ser efetuado a partir de três casais.
A
reserva genética de que dispunha a espécie humana, naquele momento, era
insignificante. Três casais para repovoar a Asia, a Europa, a África, as
Américas e a Oceania Os primeiros casamentos, por conseguinte, dar-se-iam entre
primos. Noutras circunstâncias, as uniões endogâmicas acabariam por gerar
homens e mulheres débeis, enfermiços e até mesmo desfigurados. Haja vista os
desastres genéticos da casa de Faraó. Para que isso não viesse ocorrer na
família de Noé, abençoa Deus extraordinariamente aqueles casais, cujos filhos
teriam de nascer fortes, saudáveis e perfeitos, pois a sua missão civilizatória
seria árdua e estressante
Era
a segunda vez que o Senhor abençoava geneticamente a raça humana A primeira
deu-se com Adão e Eva, cujos filhos tiveram de casar-se entre si. Agora, porém,
isso não mais será necessário, pois, ao invés de um, há três casais prontos a
dar sequência ao repovoamento do planeta Abençoados, haveriam de gerar povos
fortes, inteligentes e aguerridos que, em breve, espalhar-se-iam pelos cinco
continentes.
Daqueles
três casais saíram tribos, povos, reinos e impérios.
3.
Uma nova realidade ecológica. Em consequência da
grande inundação, a Terra já não teria a fartura e a prodigalidade do período
pré-diluviano. Doravante, seus habitantes terão de experimentar longas
estiagens, fomes e enfermidades. Se o planeta anteriormente era protegido por
um escudo aquoso, este, por ocasião do Dilúvio, veio abaixo, engolindo boa
parte dos continentes. Desde então, achamo-nos vulneráveis aos raios ultravioletas
do Sol. E, sob tais condições, ninguém mais desfrutaria da longevidade tão
comum à primeira civilização.
A
Terra, agora, passaria a requerer maiores cuidados e empenhos. A nova realidade
ecológica encurtar-nos-ia a vida, não nos permitindo avançar além dos 120 anos.
Na realidade, quem chega aos 80 dá-se por feliz.
II.
O ARCO DE DEUS
Segundo
os antigos gregos, o arco-íris pertencia a uma deusa, cuja tarefa era unir o
Céu e a Terra. Mensageira dos olimpianos, estava sempre pronta a derramar
oráculos e mistérios sobre os pobres mortais. Íris, como era chamada, de vez em
quando fazia o seu arco aparecer, a fim de acalmar as gentes do Mediterrâneo.
Se
nos pusermos a pesquisar as mitologias europeias, africanas, asiáticas e
ameríndias, constataremos: o arco, que nunca pertenceu a íris, acha-se na alma
de todas as tribos, nações e povos. Mas, somente na Bíblia Sagrada,
encontraremos o seu verdadeiro proprietário e significado.
1. Uma promessa bem visível. Já
fora da arca, Noé erige um altar, e, sobre este, oferece aves e animais limpos
ao Senhor, agradecendo-o pelo grande livramento. O sacrifício alcança os céus,
e acalenta o coração de Deus. Em seguida, promete-lhe o Senhor: “Não tornarei a
amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem
desde a sua mocidade; nem tornarei a ferir todo vivente, como fiz” (Gn 8.21).
O
Senhor deixa bem claro ao seu servo, que a Terra não será arrasada por outro
dilúvio: “Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio
e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gn 6.22). Para que não pairasse dúvida
alguma sobre as suas intenções, aprouve a Deus dar-lhes um sinal bem visível de
sua aliança com a raça humana: “Este é o sinal da minha aliança que faço entre
mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, para perpétuas
gerações: porei nas nuvens o meu arco; será por sinal da aliança entre mim e a
terra Sucederá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e nelas aparecer o
arco, então, me lembrarei da minha aliança, firmada entre mim e vós e todos os
seres viventes de toda carne; e as águas não mais se tornarão em dilúvio para
destruir toda carne O arco estará nas nuvens; vê-lo-ei e me lembrarei da
aliança eterna entre Deus e todos os seres viventes de toda carne que há sobre
a terra” (Gn 9.12-16).
A
partir daquele momento, os seres humanos veriam a chuva não mais como ameaça,
mas como parte das bênçãos divinas. Aos israelitas prestes a tomar posse de
Canaã, promete o Senhor através de Moisés: “Se diligentemente obedecerdes a
meus mandamentos que hoje vos ordeno, de amar o Senhor, vosso Deus, e de o
servir de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, darei as chuvas da vossa
terra a seu tempo, as primeiras e as últimas, para que recolhais o vosso
cereal, e o vosso vinho, e o vosso azeite” (Dt 11.13,14).
Hoje,
faltando chuva num lugar, todos olham para o céu a esperar pela intervenção
divina. Enquanto redijo estas linhas, a cidade de São Paulo acha-se inquieta,
porque não houve chuva suficiente em seu principal reservatório.
2. A função do arco de Deus. Hoje,
até poderíamos viver sem o arco-íris, porque todos sabemos que Deus não voltará
a destruir a Terra através de um novo dilúvio. Aos descendentes de Noé, porém,
o arco de Deus não era apenas um fenômeno ótico; era a garantia de que o Senhor
estava no controle de todas as coisas. E, portanto, não permitiria que a
segunda civilização tivesse qualquer ruptura, pois os seus desígnios são
eternos.
Já
imaginou se o arco de Deus não aparecesse por ocasião de uma chuvarada ou
tempestade1 A geração pós-diluviana seria arruinada por uma profunda e
incurável depressão. Bastaria o tempo fechar e as nuvens sobrecarregarem-se,
para que todos se apinhassem nos outeiros, montes e torres. Aliás, a humanidade
não faria outra coisa a não ser construir barcos e navios, pois a imagem do
Dilúvio era ainda aterradora.
III.
UMA NOVA CIVILIZAÇÃO
A
partir do altar que erguera ao Senhor, inicia Noé uma nova civilização. Ele
invoca a Deus que, prontamente, responde-lhe com uma promessa.
Portanto, o início da civilização atual foi essencial e ostensivamente
teocrática. Mas, para que os males da primeira não viessem a destruir a
segunda, o Senhor toma uma série de medidas, a fim de viabilizá-la.
1. A extensão da vida humana. Os
homens já não serão tão longevos quanto os antediluvianos. Se fizermos uma
comparação entre a genealogia do capítulo cinco, que tinha como tronco o
próprio Adão, e a do capítulo 11, cuja cepa é Noé, concluiremos que Deus, de
fato, reduziu drasticamente a extensão da vida humana.
Doravante,
o homem não mais contará a sua vida em séculos, mas em poucas e minguadas
décadas. Se Matusalém alcançou 969 anos, José morrerá aos 110. E, hoje, os mais
robustos logram chegar aos 70 ou, quando muito, 80 anos. Se por um lado os bons
pouco viverão, os maus não durarão muito. Dessa forma, daremos sequência à
civilização através de nossos filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Senão
podemos ter um John Wesley com 500 anos, não corremos o risco de um Hitler com
600. Sábia e amorosamente, o Senhor encurtou--nos os dias, para que viéssemos a
contá-los e remi-los de acordo com a sua vontade.
2. A nova dieta humana. Na
primeira civilização, a dieta humana era composta de frutas, verduras e
legumes. Após o Dilúvio, porém, o Senhor permite aos filhos de Noé a dieta
animal, para suplementarem a vegetariana, Eis a orientação que Deus deixa a
Noé: “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva
verde, tudo vos dou agora. Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue,
não comer eis” (Gn 9.3,4).
Se,
no início, os animais serviam apenas para o culto ao Senhor e para as lidas do
campo, a partir de agora hão de servir também como alimentação aos filhos de
Noé.
IV.
ORDENAMENTO JURÍDICO DA NOVA CIVILIZAÇÃO
Na
era pré-diluviana, era o próprio Deus quem ministrava a justiça entre os filhos
de Adão. Não havia medianeiros angélicos nem humanos. Por causa da morte de
Abel, arguira o Senhor pessoalmente a Caim, punindo-o com o desterro. O
assassino, temendo por uma vindicação terrena, supusera que o primeiro a
encontrá-lo tirar-lhe-ia a vida. O Juiz de toda a Terra, contudo, havia
proibido semelhante justiçamento. E, para tanto, colocara um sinal no homicida,
para que este fosse poupado. Agora, porém, a realidade jurídica do planeta será
mais rígida, - não admitirá contemplações. Somente com a vida poderá a vida ser
vingada.
1.
O fundamento jurídico da nova civilização. Nenhuma
civilização é possível sem um sólido fundamento jurídico. Sem lei, não há convivência,
mas uma sobrevivência hostil e nada solidária. Nas famílias, onde a disciplina
é visível, todos progridem e desenvolvem-se. Onde reina a anarquia, a
dissolução é mais que certa,- é uma fatalidade anunciada.
Por
essa razão, o Senhor entrega o governo da Terra a Noé, deixando-lhe um preceito
que logo se faria universal: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem
se derramará o seu, - porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gn 9.6).
Tal princípio seria ratificado pelo Cristo. Utilizando o vocabulário da graça
divina, afirma o Filho de Deus: ‘Tudo quanto, pois, quer eis que os homens vos
façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mt
7.12).
A
essência de ambas assertivas é a mesma. Se quero viver, então que eu deixe
viver. Se não quero ser ferido, que eu a ninguém fira. Se quero que me façam o
bem, que eu não me prive de fazer o bem Mas, fazendo-me alguém o mal, não devo
retribuir-lhe com o mal; tenho de mostrar-lhe o bem que a tudo vence. Alei do
amor cristão transcende essas fronteiras, pois espelha a ação do Nazareno.
2.
A santidade da vida humana. A lei que o Senhor entregou a
Noé é o germe de todo o ordenamento jurídico do planeta. Sua essência acha-se
tanto nos Dez Mandamentos como no Sermão do Monte. Aliás, nenhum ordenamento
jurídico respeitável pode dispensar tão precioso enunciado. Mesmo que seja
formulado por idólatras como os gregos e romanos, ou por pragmáticos e quase
ateus como os chineses, o princípio da santidade humana é imprescindível à
comunidade humana. Doravante, fratricidas como Caim não mais serão tolerados.
Se matou, haverá de morrer. E Lameque? Ainda que louve seus feitos, não ficará
impune A uma sociedade leniente e permissiva, como a brasileira, semelhante
princípio avulta-se desamoroso e cruel. Em sua essência, entretanto, acha-se o
mais amoroso dos preceitos: “Tudo quanto, pois, quer eis que os homens vos
façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mt
7.12).
Por
que vida por vida? Antes de tudo, porque a vida é o dom mais precioso que nos
concedeu o Senhor. Por isso mesmo, só uma vida para resgatar outra vida. Embora
a pena de morte seja muito discutida, continua válida e aplicável. A vinda de
Cristo não a anulou Ao cristão mio cabe buscar vingança com as próprias mãos.
Essa função cabe ao Estado que, se bem ordenado e justo, refletirá a justiça de
Deus. É claro que não podemos ver a União Soviética de Stalin, a Alemanha de
Hitler, o Camboja de Pol Pot ou a Cuba de Fidel Castro, como expressão da
justiça divina. Todavia, há nações que, embora não cristãs, manifestam
perfeitamente as leis de Deus.
O
princípio da santidade da vida é contra todos os tipos de homicídio: aborto,
eutanásia, crimes de guerra, genocídio, experimentos em células-tronco
embrionárias e outras modalidades de crimes que hão de surgir com o avanço da
ciência e da tecnologia
3. Quem
mata um ser humano atenta contra Deus. O princípio da
justiça divina, entregue a Noé, tem como essência a santidade da vida, fundamentando-se
neste axioma quem atenta contra o ser humano contra o próprio Deus atenta, pois
fomos criados à sua imagem e semelhança
Desta
lei simples e direta surgem todas as demais. A iniquidade que levou o mundo à
destruição começou com dois homicidas: Caim e Lameque. O primeiro foi poupado
por Deus. Ao invés da pena capital, foi punido com o banimento. Tornou-se
andarilho e vagabundo na Terra. Quanto ao segundo, banal mente matou e banal
mente louvou seus feitos.
V.
O PRINCÍPIO DO GOVERNO HUMANO
Até
Noé sair da arca, era o próprio Deus quem governava o mundo. Agora, porém, o
Senhor delegará a administração do planeta ao próprio homem.
1. O governo humano. Teologicamente,
o governo humano é a autoridade que Deus entregou a Noé e a seus filhos, tendo
como objetivo administrar a justiça, ordenar politicamente a sociedade e tornar
sustentável a Terra Embora o governo seja humano, a soberania é divina. O
Senhor concede tal autoridade ao homem, para que este, cumprindo-lhe os
mandamentos e fazendo-lhe a vontade, traga a plenitude do Reino dos Céus à
Terra.
2. A intervenção ordinária do homem. O
governo humano deve ter, como parâmetro, a soberania de Deus. Nossa autoridade,
portanto, não deve ignorar a divina, nem nossas atribuições podem ir além dos
limites que Ele nos estabeleceu. Na História Sagrada, não foram poucos os
governantes que, menosprezando lhe a presença, ousaram governar como se não
houvesse Deus. Haja vista Faraó, Etbaal II, Nabucodonosor e Herodes, o Grande.
Todos eles foram duramente castigados pelo Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Por conseguinte, quando o homem governa, intervém ordinariamente no mundo. Se
for além, contraria a Deus. Revoltam-me governantes como Stalin, Hitler e
certos tiranetes latino-americanos que, tão logo assumem o poder, escravizam
seus povos, empenhando-se em apagar o nome divino de suas cartilhas ridículas,
nas quais subvertem a moral e os bons costumes.
3. A intervenção extraordinária de Deus. Embora
Deus haja delegado o governo do mundo ao homem, continua Ele a comandar todas
as coisas. A todo instante vem intervindo quer na história das nações, quer na
biografia de cada pessoa.
Quando
necessário, intervém extraordinariamente, Interveio em Sodoma e Gomorra,
destruindo ambas as cidades. Interveio no Egito, arrancando de lá a Israel.
Se
lermos a história universal comas lentes da soberania divina, constataremos:
Deus interveio em Roma, levando-a ao desaparecimento. Na Europa, criando nações
e abatendo impérios. São intervenções divinas na comunidade humana.
De
fato, o governo é nosso, mas o controle é de Deus. Ainda que o ignoremos,
continuará Ele a reinar absoluto sobre todas as coisas.
CONCLUSÃO
O
Dilúvio destruiu a raça, mas, em Noé, preservou a espécie humana. Se a primeira
civilização teve um fim trágico, a segunda poderia haver começado de maneira
responsável e amorosa Mas, como mais adiante veremos, não demoraria para que o
homem voltasse aos pecados e iniquidades do mundo de Lameque.
Agora,
porém, haverá um diferencial: Deus começará a separar, desde Sem, um povo
santo, zeloso e de boas obras, a fim de que lhe preserve o conhecimento e as
leis até que venha Jesus Cristo, o desejado de todas as nações. A nação de
Israel terá inicio com Sem, ancestral de Abraão, amigo de Deus.
* Claudionor Correa de
Andrade é um pastor assembleiano e um dos principais teólogos pentecostais
brasileiros, membro da Academia Evangélica de Letras (2001) e com a participação na
fundação da Academia de Letras Emílio Conde (2002). Além disso, o Pr.
Claudionor de Andrade foi um dos editores da Bíblia de Estudo Pentecostal, e o
primeiro Diretor de Publicações da Editorial Patmos, braço da CPAD para o
mercado hispano
Lição 06: O Impiedoso Mundo de Lameque
*Claudionor de Andrade
INTRODUÇÃO
Como você classificaria um homem que, após haver matado duas pessoas, compõe um poema? Num verseto atrevido e insolente, ele garganteia a façanha às suas esposas: “Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4.23,24). Sim, como você classificaria tal homem? No mundo que precedeu o Dilúvio, ele foi aclamado como herói. Embora soubesse que o Criador não lhe deixaria impune o duplo homicídio, Lameque continuou a viver como se não houvesse Deus. Sua atitude replicar-se-ia até mesmo entre os filhos de Sete. A partir daquele poema, a humanidade inicia um processo de depravação total e irreversível.
Nosso mundo em nada difere da sociedade lamequiana, exceto num pormenor estatístico. Naquele tempo, o número dos piedosos não chegava à casa da dezena Hoje, os justos são contados aos milhões.
Entremos, pois, a conhecer o abominável mundo de Lameque.
I. A IMPERFEIÇÃO NUM MUNDO PERFEITO
Lançado em 2014, o filme Noé, roteirizado e dirigido por Darren Aronofsky, levou o leitor da Bíblia à frustração. Pelo menos, esse foi o meu sentimento ao desperdiçar mais de duas horas com aquela caricatura da primeira epopeia da História Sagrada Para começar, Aronofsky mostra o mundo pré-diluviano como que arrasado por uma guerra nuclear. De acordo com a sua paródia, a Terra já não existia ecologicamente. Do texto sagrado, porém, inferimos outra realidade. Nosso planeta era farto e pródigo; a humanidade, saudável e longeva; e, no ambiente natural, reinava perfeita harmonia.
1. Um planeta farto e pródigo. Apesar do pecado, a Terra pré-diluviana era um habitat perfeito; proporcionava alimentos e regai os a todos. Por isso, os filhos de Adão davam-se ao luxo de viver irresponsável e impiamente Observemos a descrição que faz o Senhor Jesus deste período: “Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca” (Mt 24.38).
Aquela geração não se angustiava com os problemas que, hoje, nos afligem Ninguém se preocupava com a ecologia Água? Rios e riachos não lhes faltavam Como possuíssem tudo em abundância, gastavam as horas em orgias e truculências. Longevos, nem menção à morte faziam Comiam e bebiam, e contavam a vida em séculos, não em décadas.
2. Vida longa e próspera. O Sr. Spock, personagem interpretado por Leonard Nimoy (1931-2015), sempre despedia-se de seus amigos com uma saudação quase rabínica: “Vida longa e próspera”. Oriundo de Vulcano, Spock, além de longevo, fazia questão de orientar-se por uma ética irretorquível e através de uma lógica superior e pura.
A geração de Lameque também usufruía de uma vida longa e próspera. Entretanto, vivia imoral e irracionalmente. Sua lógica era o pecado. Ora, se a sua iniquidade j á tinha uma história de quase dois mil anos, por que mudar? Então, vida longa e próspera a um mundo que se compraz no Maligno.
Não era incomum deparar-se com um adúltero de seis centos anos, com um assassino de oitocentos ou com um corrupto de quase mil. Imagine a folha corrida dos lamequianos.
Por isso, o Senhor resolve colocar um limite biológico à vida humana Doravante, os filhos de Adão e Eva não irão além dos 120 anos (Gn 6.3). Se fizermos uma comparação entre as genealogias dos capítulos cinco e 11 de Gênesis, verificaremos que, na primeira, a vida humana era computada em séculos. Na segunda, nossa existência já pode ser contada em décadas. Se Matusalém chegou a 969 anos, Terá, pai de Abraão, morrerá aos 205 (Gn 11.32). Foi este, a propósito, o último dos longevos. Na conclusão do Gênesis, constata-se a fronteira biológica do ser humano j á estava fixada José, filho de Jacó, falece aos 110 anos (Gn 50.26). Mais tarde, queixar-se-ia Moisés da efemeridade da existência (SI 90.10).
Com uma vida quase milenar, os pré-diluvianos viviam pendularmente entre a eternidade e a impunidade Como um homem de quase mil anos haveria de temer a morte? E se Deus j á os entregara aos próprios erros, não lhes castigando de imediato a iniquidade, por que temer o Juízo Final se a História mal havia começado? Por essa razão, os contemporâneos de Noé viviam para pecar e pecavam para viver.
3. Harmonia ecológica. Até o Dilúvio, havia perfeita harmonia entre os reinos animal, vegetal e humano. Os animais selvagens não representavam qualquer ameaça A única ameaça era o próprio homem Agressivo e irreconciliável, amedrontava até mesmo a mais brutal das feras. Após o Dilúvio, contudo, pavor e medo recairiam sobre o reino animal; sobre a natureza, gemido e angústia (Gn 9.2; Rm 8.22). O mundo ainda era perfeito, belo e sustentável. Mas o povo que o habitava era o antônimo de tudo isso. Ao invés de agradecer ao Criador por todas as benesses, os filhos de Adão aproveitavam tais favores para depravar-se totalmente, Um mundo perfeito para uma geração imperfeita.
II. O EFEITO LAMEQUE
Teologicamente, Adão foi o grande responsável pela introdução do pecado no mundo (Rm 5.12). Historicamente, porém, o pecado alastrou-se a partir de Lameque, filho de Metusael (Gn 4.18). Foi ele o primeiro pecador confesso da história da humanidade De uma única feita, admitiu haver cometido duas transgressões contra Deus. Sua confissão, todavia, não foi acompanhada de arrependimento nem remorso; fez-se acompanhar de um medo que logo seria esquecido. Indiretamente, confessa a bigamia E, diretamente, o duplo homicídio. Sua confissão j az num poema que, hoje, é conhecido como o Cântico da Espada.
1. A bigamia. De conformidade com o projeto original de Deus, o casamento teria como fundamento a heterossexual idade, a monogamia e a indissolubilidade. Lameque, entretanto, corrompeu as bases do matrimônio, tomando para si duas esposas: Ada e Zilá.
Noutra circunstância, os nomes de suas mulheres até rima dar iam Mas, naquele momento, não havia ritmo nem harmonia,- havia uma iniquidade que, assustadora e rapidamente, começava a alastrar-se por aquela região. De berço, a região do Éden ia transformando-se no túmulo da primeira civilização humana Na vida de Lameque, as coisas ruins vinham aos pares: duas mulheres, dois homicídios, etc. Tivesse o seu poema mais versos, outras iniquidades apareceriam em duplas. Sua confissão duplicada basta para mostrar um processo irreversível de apostasia. Da poligamia à promiscuidade sexual foi apenas um passo. Seu exemplo contaminaria inclusive a linhagem de Sete que, apesar de um passado santo e piedoso, também se deixará contaminar pela libertinagem Eis o testemunho da Bíblia: “Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram” (Gn 6.1,2).
Os descendentes de Sete, aqui alcunhados de filhos de Deus, mio somente fazem-se polígamos, como também ultrapassam todos os limites da decência. Tomando para si quantas mulheres lhes permitiam a luxúria e a libertinagem, transformaram o convívio social numa orgia desenfreada.
2. Duplo homicídio. Se Caim teve de ser duramente arguido por Deus para confessar o assassinato de Abel, não precisou Lameque de arguição alguma. Espontânea e livremente, declara haver assassinado banalmente dois homens. Um adulto, ele o matou porque o ferira E um rapaz por lhe ter pisado. Se recorrermos ao original, constataremos que o segundo crime foi ainda mais grave. Lameque revela ter assassinado um j ovem Em hebraico, yeled pode aludir tanto a um adolescente quanto a uma criança. Logo, o seu crime, além de banal e covarde, foi singularmente brutal.
Nossos dias parecem não diferir em nada do mundo de Lameque Por um grama de droga há muito j ovem, adolescente e criança perdendo a vida E, por causa de uns míseros centavos, muita gente não retorna ao lar. Banalmente, assassina-se, hoje, como banalmente assassinava-se naqueles começos da História Tanto no princípio, quanto no fim, a índole criminosa do ser humano em nada melhorou,- caminhamos de mal a pior.
Lameque deflagrou a iniquidade por todo o planeta. Hoje, somos angustiados por assassinatos, genocídios e crimes contra a humanidade Haja vista os extermínios de judeus e armênios, e a matança promovida como política pública por monstros como Stalin, Hider, Mao Tsé-Tung e Pol Pot.
III. UM MUNDO PARADOXAL
O mundo de Lameque não era caracterizado apenas pela rebelião contra Deus. No exercício de seu mandato cultural, desenvolveu, desde cedo, a agropecuária, a metalurgia e a música Foi uma época de grandes conquistas intelectuais e tecnológicas. Do texto bíblico, inferimos que a engenharia já estava bem desenvolvida, pois a geração pós-diluviana não teve dificuldades em construir a Torre de Babel. O curioso é que todo esse progresso proveio da geração de Caim Os filhos de Sete, antes de se transviarem, haviam se dedicado mais às atividades espirituais e teológicas.
1. A primeira cidade. Banido da presença do Senhor, Caim habitou na terra de Node, ao oriente do Éden. Ali, teve o seu primogênito, a quem chamou Enoque Como a sua linhagem se multiplicasse, organiza ele uma cidade, a qual dá o nome de seu filho mais velho. Em torno desse centro urbano, as atividades profissionais diversificam-se Aparecem os pecuaristas como Jabal. Surgem os metalúrgicos como Tubalcaim E despontam os artistas como Jubal. Também irrompem os primeiros conflitos, revelando grandes e notórios criminosos e malfeitores.
No campo e na cidade, a rebelião contra Deus alastra-se, contaminando toda a Terra O fenômeno urbano encarrega-se de espraiar os maus exemplos, levando os filhos de Adão a um rápido processo de depravação essencial e total.
Apesar de a Bíblia nada dizer acerca da civilização setista, esta organizou-se também em cidades. Inexistindo barreiras linguísticas e geográficas, não demoraria para que a civilização caimita englobasse a setista, e lançasse os fundamentos da megalópole da iniquidade. Foi o primeiro ensaio do Anticristo no estabelecimento de seu império. Vejamos as atividades econômicas da civilização caimita.
2. Atividades agropecuárias. Embora os descendentes de Adão e Eva pudessem viver da caça e da coleta de frutas, verduras e legumes, desde cedo empenharam se em trabalhar seletiva e metodicamente a terra. Essa preocupação acentuou-se entre os filhos de Caim, o primeiro agricultor.
Jabal, filho de Lameque, deixando a cidade de Enoque, passou a dedicar-se à criação de gado. E, na busca por boas pastagens, faz-se nômade Por isso, ele é conhecido como o “pai dos que habitam em tendas e possuem gado” (Gn 4.20). Observemos que, para construir e erguer tendas, necessitava Jabal de instrumentos cortantes e coberturas para suas moradias portáteis. Teriam aqueles antigos habilidades para fiar o algodão e o linho? Deveríamos pensar nesses detalhes, pois são bastante reveladores.
3. Atividades industriais. Não há agricultura nem pecuária sem uma indústria de base Há de se ter, pelo menos, uma boa metalurgia para se forjar enxadas, pás e relhas aos agricultores, e os instrumentos próprios dos pecuaristas. E justamente aí que surge a indústria de Tubalcaim Filho de Caim com Zilá, foi ele “artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro” (Gn 4.22).
Não foi, portanto, o homo erectus quem descobriu o fogo. Dizem os evolucionistas que este, ao observar os raios faiscando nas árvores, veio a intuir ser possível dominá-lo. Também não foi Prometeu quem no-lo proporcionou, roubando-os aos deuses do Olimpo. Se alguém descobriu o fogo não foi o homo erectus, nem os deuses da mitologia grega, mas o justo Abel que, ao fazer sua oferenda ao Senhor, queimou-a como cheiro suave A par rir dai, os filhos de Adão passaram a utilizá-lo, a fim de preparar alimentos, alumiar suas casas, etc.
Tubalcaim viria a descobrir ser possível industriar o fogo e, assim, fundir os minérios de bronze e de ferro. Ora, se a região era rica em ouro, por que não explorá-lo? Acredito que, se a humanidade não tivesse pecado contra o Senhor, poderia ter começado a civilização não a partir do ferro, mas do ouro.
Segundo a história secular, a Idade do Ferro teria começado por volta do ano 1200 a C. Todavia, j á na aurora da humanidade, havia um metalúrgico e fundidor que, admiravelmente, sabia como trabalhar o bronze e o ferro. Processando-os, forjava instrumentos cortantes. Das forjas de Tubalcaim deve ter saído também muita espada e punhal. Violência era o que não faltava àquela época.
4. Atividades intelectuais e artísticas. A música brotou da alma do homem, pois sempre esteve no Espírito de Deus. Quando o Senhor criava os céus e a terra, os anjos entoavam-lhe louvores altos e eternos (Jó 38.7). Acredito que a feitura de Adão fez-se também acompanhar dos coros angélicos. Por isso, somos naturalmente musicais. Jubal, também filho de Lameque, foi “o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4.21). Observando a sinfonia da natureza, logo descobriu ser possível arrancar harmonias e ritmos da madeira e do metal. Dessa forma, compôs músicas e madrigais. Terá ele musicado o poema de Lameque? O certo é que, não somente criou instrumentos, como também ensinou música Ele inventou harpas e flautas. Os músicos subsequentes criariam a trombeta, o pífaro, a citara, o saltério e a gaita de foi es (Dn 3.5).
Paradoxalmente, as finuras da mente eram livre e espontaneamente manifestadas, apesar da corrupção que campeava no mundo de Lameque Longe de serem primitivos e involuídos, os primevos eram evoluídos, inteligentes e muito mais inventivos do que nós. Só lhes faltava uma coisa a verdadeira sabedoria que nos advém com o temor a Deus.
IV. A RELIGIÃO DE LAMEQUE
No mundo de Lameque, não havia espaço aos ídolos de barro, madeira ou ferro. Ali, a religião era agressivamente antropológica Seus ídolos eram os varões que se notabilizavam por atos violentos, por façanhas truculentas e por repetidas e agravadas blasfêmias contra o Espírito Santo. A geração de Lameque era uma raça de anticristos: homens, mulheres e crianças depravavam-se até ao inferno. Um mundo irremissível; votado à destruição. Era uma gente pior do que Satanás. Se não fosse destruída, arruinaria para sempre a criação divina
1. A teologia. A geração de Lameque não desconhecia a presença de Deus. E, posto não haver ainda o governo humano, o próprio Criador era quem os governava Aqueles ímpios, contudo, confrontavam o Eterno, não lhe aceitando a governança.
Aquela gente tinha a Deus como fraco e leniente; um criador distante da criação. E, como fossem todos longevos, desconheciam as noções de brevidade que, hoje, levam-nos a refletir seriamente sobre a morte Para eles, a vida era longa e próspera Havia gente mais velha que Portugal, mais antiga que os Estados Unidos e com mais história que o Brasil. Segundo imaginavam, Deus não fazia bem nem mal.
2. Os ídolos. O autor sagrado fala dos heróis daquela época: “Ora, naquele tempo havia gigantes na terra,- e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram vai entes, varões de renome, na antiguidade” (Gn6.4). Os tais não eram semi deus es nem super-humanos, mas pecadores notórios. Nem após o arrebatamento da Igreja o mundo chegará a tal degradação, pois, nos últimos dias, ainda haverá arrependimentos e conversões. Portanto, o Dilúvio era inevitável.
3. A relação com o Espírito de Deus. Da geração de Lameque, falou o Senhor: “O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos” (Gn 6.3). Não sabemos por quantos anos, décadas, ou séculos, a geração de Lameque resistiu ao Espírito Santo. Da resistência ao Espírito de Deus, aqueles homens, mulheres e crianças passaram a blasfemar contra a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, depravando-se totalmente.
Imaginemos toda uma civilização a blasfemar contra o Espírito Santo. Fizeram-se aqueles homens piores do que os demônios. Estes, por não serem dotados de corpo, não podem estragar a criação física. Aqueles, pelo contrário, dotados de corpo e alma, transgrediam tanto no campo espiritual, como âmbito terreno. Os seguidores de Lameque eram duplamente endemoninhados.
CONCLUSÃO
Vivemos dias semelhantes aos de Lameque Nosso mundo parece depravar-se total e irreversível mente. Hoje, porém, temos um povo mais forte e numeroso que a família de Noé Se naquele tempo os justos eram contados em unidades, agora, são computados em milhões. Portanto, como sal da terra e luz do mundo, evangelizemos, protestemos contra o pecado e, através de um testemunho ilibado, apregoemos a volta de Cristo.
Enquanto a Igreja for Igreja, o Anticristo não achará guarida completa neste mundo. Embora avance em todas as áreas, sempre encontrará homens, mulheres, jovens e até crianças dispostos a barrar-lhe a trajetória. Não podemos esquecer nossa vocação de sal e de luz. Se tivermos ambas as propriedades em nosso testemunho pessoal e coletivo, levaremos o Evangelho de Cristo até aos confins da terra sem impedimento algum.
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